Dia do trabalho ou dia do trabalhador?

Primeiro de maio: dia do trabalho ou dia do trabalhador? Tanto faz? Não, é bastante diferente.

O que comemoramos hoje: o trabalho, que é uma ação humana sobre o mundo ou o humano que produz essa ação? Qual é a ênfase? Quando se homenageia o trabalho, parece que se homenageia uma “coisa” apolítica, vira uma festa, quase um romance, “já que todos queremos um trabalho”. Quando se homenageia o trabalhador, lembramos das lutas pelos direitos trabalhistas. Assim, Feliz dia do Trabalhador.
Fato é, que hoje o dia do trabalhador está sendo “comemorado” de forma completamente atípica pela nossa condição atual de pandemia e consequente isolamento social.
Como será daqui a um ano, cinco anos, dez anos… O que nos lembraremos desses dias de isolamento? Como estarão as relações humanas, inclusive as relações de trabalho?
O trabalho é, no estudo do desenvolvimento humano, uma das marcações da Adultez. O ser humano se torna adulto (na nossa sociedade ocidental-capitalista) quando se insere no mercado de trabalho. Se você for perguntar a pessoas na faixa de 30 anos ou mais, quando ela se sentiu adulta pela primeira vez, muito provavelmente você ouvirá respostas relacionadas a trabalho e responsabilidades: “quando assinei meu primeiro contrato de trabalho”, “quando recebi meu primeiro salário” “quando (…) com meu chefe, ou no trabalho…” “tive que pagar as contas” são respostas muito frequentes.
A adultez apresenta-se com novas responsabilidades, em novos referenciais de existencialidade, em novas conquistas, em busca de um maior entendimento desta importante e mais abrangente etapa da vida humana. Os adultos assumem responsabilidade profissionais para sustentar-se economicamente. A partir daí, o trabalho passa a ser fonte de sobrevivência e de satisfação (ou insatisfação) para viver.
Maldonato e Goldin (2004) afirmam que uma pessoa que passou da fase adolescente para a fase adulta é aquela que adquiriu a capacidade de tomar conta da própria vida, de responsabilizar-se por si mesma e por aqueles que precisam dela.
Dentro dos estudos, sociedades em desenvolvimento tendem a adiar a escolaridade, e é comum encontrarmos pessoas adultas que ainda estudam, sejam recuperando estudos não realizados (Educação para Jovens e Adultos), uma graduação (a primeira ou não), uma pós graduação. Fato é que quando investimos nos estudos, estamos na verdade almejando uma melhora na nossa qualidade de vida, o que implica também em um melhor/mais valorizado/mais bem pago Trabalho.
Voltamos aos Trabalho. Quando me refiro ao trabalho como definidor da adultez, talvez esteja sendo injusta. Na verdade, talvez o trabalho defina a nossa existência. Quando crianças nos perguntam o que vamos ser quando crescermos. Quando adolescentes, cursando o ensino médio, nos cobram que curso faremos como graduação. Quando adultos lutamos arduamente para tirar do ofício além do sustento financeiro, alguma satisfação e prazer. Quando idosos e nos aposentamos (os que conseguem se aposentar), vivemos o luto de não mais ter a rotina diária do trabalho (e muitas vezes isso vira fator de sofrimento).
Muito do que vivemos gira em torno do trabalho: Na vida adulta precisamos deixar de lado nossas definições sobre nós mesmos e assumir uma serie de papéis que envolvem relações intrincadas com outras pessoas. E o trabalho (profissão, ofício) tomam uma boa parte da nossa vida, dos nossos papéis sociais. Nos definem inclusive enquanto pessoas e seres sociais.
Entretanto, assim como o trabalho pode (e deve) se tornar fonte de satisfação, ele também pode se tornar fonte de desprazer, seja pelo medo de perdê-lo, seja pelos sofrimentos associados a ele, como falta de condições adequadas para realizar o trabalho como deve (ou entendemos que deve) ser realizado, incapacidade, incompletude, inaptidão, incompetência. São muitas as fontes possíveis de prazer e sofrimentos associados ao trabalho.
Muitos dos problemas que encontramos em clínica psicológica de adultos estão de certa forma relacionados ao trabalho (uma outra grande parte aos relacionamentos amorosos). São crenças de desamparo e desamor que precisam ser revistas e ressignificadas.
Em resumo, fica aqui nossa reflexão: que o dia de hoje sirva para repensarmos nossas relações (sadias ou patológicas) com o trabalho. O quanto nos tornamos escravos do nosso trabalho, o quanto nem notamos que isso acontece? Que possamos aproveitar esse (atípico) dia do trabalhador (e não do trabalho) para repensar e quem sabe reconstruir novas relações de trabalho nesse novo mundo que irá surgir. O mundo nunca mais será o mesmo, acho que isso já ficou claro: A questão que fica é: O que deixaremos como legado para as futuras gerações? Como serão as novas relações humanas, inclusive no trabalho?
Referências:
MALDONATO, M.T. ; GOLDIN, A. Maturidade. São Paulo: Planeta, 2004.

Escrito por Ana Cristina Costa França, em 1º de maio de 2020
A autora é Psicóloga Clínica, Mestre em Psicologia: Teoria e Pesquisa do Comportamento, Professora universitária e Sócia proprietária da Salutem Psi.

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